segunda-feira, 25 de maio de 2009

Requiem

A narrativa se desenrola no presente, mas o pai, ao aparecer no quarto de pensão, diz que está em 1932 e quer saber do filho, no futuro, o que vai ocorrer com ele, como morrerá. Não é uma viagem no tempo no sentido hollywoodiano, repleta de peripécias, em filmes como os da série De Volta para o Futuro. É algo mais complexo, perturbador - desde, é claro, que o espectador se proponha a acompanhar a viagem de Tanner. Um certo conhecimento intelectual é indispensável nessa travessia. Não é por acaso que Réquiem leva seu subtítulo - Um Encontro com Fernando Pessoa.
Antes de Pessoa, convém falar sobre Tabucchi, o escritor italiano que traduziu a sublime poesia de Pessoa para o idioma de Dante.

Tabucchi foi além e fez de Pessoa também personagem, porque, como ele gosta de dizer, o poeta era um homem tão misterioso, tão complicado, tão difícil na sua humanidade que só poderia virar ficção. Tabucchi não deixa por menos e considera Pessoa o maior poeta da modernidade. No afã de decifrar o mistério de Pessoa e seus heterônimos, virou o maior divulgador da literatura portuguesa na Itália. E foi além, escrevendo Réquiem diretamente em português.
Alguns livros de Tabucchi viraram filmes. O francês Alain Corneau adaptou Nocturno Indiano, o italiano Roberto Faenza baseou-se em Afirma Pereira para fazer Páginas da Revolução. Esse interesse do cinema por sua obra não deixa de surpreender o próprio Tabucchi, pois, como ele diz, seus livros não têm nada de cinematográfico, no sentido de que o cinema quer histórias e o foco de sua literatura não está propriamente nelas. Réquiem começa e termina no porto de Lisboa. No começo, Paul diz que marcou um encontro com alguém que não apareceu. No vaivém do tempo que está na essência do projecto, ele conta que sua narrativa vai do meio-dia à meia-noite. Uma história de deambulações, de buscas, de fantasmas.

Bosch - Lá pelas tantas, Paul, empapado de suor - pois Lisboa está insuportavelmente quente, neste domingo de verão -, vai comprar uma camisa numa feira de ciganos. A cigana que o acolhe pede para ler sua mão. O que vê a leva a dizer que Paul não pode continuar vivendo nos planos da imaginação e da realidade, mas é como ele vive. O encontro com a juventude do pai é apenas um momento dessa singular peregrinação. Ela o leva, em outro momento, para o museu no qual se encontra uma das obras-primas de Hieronimus Bosch, o quadro As Tentação de Santo António.
Paul espera que o quadro lhe apresente respostas para as indagações afetivas e existenciais que o consomem. Encontra um pintor que, há dez anos, se dedica a ampliar os detalhes desse quadro. Segue-se um pequeno roteiro, meio didático, meio surrealista, que expõe ao mesmo tempo o que Tanner, Tabucchi e o próprio Pessoa têm em comum ou o que eles querem dizer.
Quando Paul encontra Pessoa - e esse encontro, depois do quadro de Bosch, é a outra chave para se penetrar no filme -, ele comenta (critica?) o desassossego que o poeta lhe produz. E Pessoa diz que essa é a função não só da lirteratura, mas da arte. Por extensão, é como se Tanner estivesse falando do próprio cinema. Esses encontros, esses desencontros de um homem consigo mesmo, essa busca, tudo pode perturbar e até incomodar o espectador acostumado às narrativas hollywoodianas, em que a uma causa corresponde sempre um efeito (e vice-versa). Isso é Tabucchi, isso é Pessoa. A literatura é uma criatura que nos escapa, o cinema também.
E, permeando tudo isso, entra a saudade. Mais que uma palavra, é um conceito, uma emoção, uma ideia. E tanto pode ser, em Requiem, uma nostalgia do passado como do futuro, do que foi como do que poderá ser. Requiem consegue ser intrigante sem recorrer à facilidade de uma trama policial.
LUIZ CARLOS MERTEN

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