Inspirada por uma amiga (amiga, mesmo), decidi escrever algumas linhas a propósito de um texto que me deu a ler e que fala da amizade e do poder e influência que os amigos (referindo-se à adolescência) exercem uns sobre os outros, nomeadamente no que toca ao consumo de drogas ou álcool.
Entre outras coisas, o texto refere-se ao aspecto das escolhas (cruciais no período em que as pessoas são jovens) separarem pessoas que vivem vidas felizes, gratificantes e de sucesso, de outras que se rendem a "gratificações imediatas" que, aos olhos das primeiras, "não valem a pena".
Depois, fala também das ilusões que, ao consumir álcool ou drogas, gostamos de alimentar e que nos levam a acreditar que é através desse consumo que nos libertamos daquilo que odiamos em nós (se não for a nós próprios que nos odiamos) e que potenciamos aquilo que desejamos ser (mais desinibidos, mais descontraídos, mais alegres, mais calmos, etc, etc...). Mas para mim, aquilo em que é mais perigoso e tentador acreditar é que, o álcool, as drogas, ou qualquer outra coisa, nos vá tirar aquilo que mais desprezamos e que achamos que nos tira qualquer possibilidade de sermos admirados: a dor e o sofrimento.
Na nossa sociedade e na nossa cultura a dor impede-nos de sermos os heróis a quem reconhecemos o poder que permite assumir uma posição superior à do ser humano comum. Creio que será por isso que se torna difícil de acreditar que não não é preciso negar a dor. Por vezes tento dizer isto aos meus amigos:"não tens de negar a tua dor", tento fazê-los acreditar que é necessário sentir dor e aceitá-la para a ultrapassar. Para mim é nisto que consiste a felicidade. O sentimento de impotência, muitas vezes inconsciente e derivado das distorções das verdadeiras potencialidades humanas em nós, dá lugar à raiva. Raiva essa cujas origens ignoramos e que não tarda se viram contra nós próprios ou contra o outro - enquanto reflexo do nosso Eu.
Hoje, por exemplo, sinto uma raiva imensa. Tomei conhecimento que uma pessoa que eu consideraria minha amiga traiu a minha confiança ao me ter contado uma versão de um facto da sua vida, que não corresponde à verdade, pois ocultou aspectos que acredito fazerem toda a diferença. Não aceito a forma como agiu ou (pior ainda) penso que, de alguma forma, sou responsável pela dor que sinto.
Este tipo de traição é curioso quando se é marido e mulher. Há tempos um amigo do meu marido contava um episódio que se passou com um marido que tinha sido infiel e que tinha sido aconselhado pelo padre a ocultar esse facto porque, mesmo que sentisse um alívio, isso perderia todo o valor moral, visto poder magoar a mulher. Isto quereria dizer, também, que ela lhe iria, como num ajuste de contas, usar a sua confiança ou admiração para se vingar com um simples: "Não és o que me tinhas prometido!". E, assim não poderia continuar a fingir acreditar na mentira por ambos construída e mantida "com tanto amor" até à data, pois, num abrir e fechar de olhos a mesma seria destruída. Porque é que um volte-face na vida de duas pessoas é algo que se deve evitar, mesmo a custo e se viver uma mentira?
"Como pode um homem (ou uma mulher) ser admirado por algo que, afinal de contas, se baseia em ele ou ela enganar-se a si próprio? Enquanto haja por detrás disso um medo do desamparo que a pessoa não possa admitir a si própria, o admirador tem de escamotear o seu próprio desamparo. Assim ele perde-se a si próprio. O que resta talvez seja calculismo e manipulação. Mas isso são falsidades contrárias ao amor, por muito sucesso que tenhamos com elas!"
GRUEN, Arno. A Traição do Eu. Lisboa: Assírio e Alvim, 1996
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